Me levanto diariamente desiludida por ainda ser eu.
Já não preciso me olhar no espelho para saber que estou com a mesma cara cansada, as mesmas olheiras e os mesmos olhos cheios de lágrimas do dia anterior. Quando abro os olhos me pergunto quem sou eu, onde estou e sabe, foda-se! Eu sou só eu e ponto. No mesmo quarto, na mesma cama, com a mesma parede verde erva doce com as mesmas flores vermelhas desenhadas, e elas tem um vermelho tão vivo que seria facilmente confundido com o meu sangue, se eu pelo menos tivesse força para arrancar meu coração com as mãos. Mas tá bom, foda-se, essa sou eu, e continuo sendo a mesma, com o coração no mesmo lugar, com a mesma falta de ar, com a mesma sensação de não saber o caminho da superfície, com os pulmões exaltados e com o sangue pulsando muito quente nas minhas veias.
Depois quando meu dia realmente começa, tudo se acalma, e eu sinto um alívio tomando meu corpo e lá no fundo eu só ouço o som do meu coração ainda muito exaltado. Coração é um órgão muito idiota que nos mantém vivos quando queremos morrer. Sempre contrariando nossas vontades, sempre nos obrigando a levantar e a ter esperança. Foda-se, nada disso adianta porque eu continuo sendo eu, só eu, eu só. Só por um dia eu gostaria de acordar não sendo eu, queria descansar de mim e do meu coração. Queria acordar descansada, queria sobreviver a mim mesma.
Me levanto todos os dias com a desilusão de ainda ser eu, e não sei explicar porque ainda me choco de não ser diferente. Mas a esperança é realmente uma mula, e todos os dias, antes de dormir, me diz que irei acordar diferente. E normalmente eu durmo com um risinho leve, porque tem um pouco de esperança de amanhecer outra pessoa, mas aí eu acordo e choro e depois grito e depois me conformo com o destino e durante todo o meu dia eu tento ser diferente para que no dia seguinte alguma coisa realmente mude.
E agora eu vou dormir, com o coração pulsando forte e cheio de esperança, de que amanhã, quem sabe, eu consiga acordar diferente.


